(A Nelson e Natália, e Letícia)
Nossos olhos teimam em se fechar pelas corridas dos dias. Assim perdemos carteiras, moedas, chaveiros e até guarda-chuva em dia de tempestade. Meus dedos tatearam a face e não acharam os óculos – foi assim que tudo começou.
De noitinha, tinha que dar aula no cursinho sobre Machado de Assis; e as horas comiam as coisas e a tarde passava como uma rápida inutilidade. Deu tempo de chegar depressa, foi só sair correndo, é bem verdade. Mas a surpresa, eternamente a um passo de nós, me tomou no comecinho do trajeto. Na esquina de minha rua, tem uma capelinha mortuária, há semanas totalmente solitária. Nesse dia ela se iluminou, e a luz principal era uma menina pequenininha de que só restava uma pequena fagulha. Isso eu deduzi, obviamente: não tinha tempo para invadir velório. O que me fez crer foi a irmãzinha – pois eu a quero irmã da pequenina chama que se apagava – foi a irmãzinha encostada num carro do lado contrário da rua. Ela não vestia preto. Seu vestido era de um roxo florido bem vivo, mas seu rosto era de uma eterna tristeza que a contaminava até as vestes. Nessa hora eu entendi, e assim havia de ser até o fim de meus pensamentos: não tem nada mais lindo do que uma menina de luto.
Horas depois, no dia seguinte, precisei dar um pulo rápido e certeiro no centro da cidade, pois tinha esquecido o guarda-chuva no carro de um amigo que lá morava. Foi comigo um outro, companhia de desesperos, munido da proteção necessária. Chovia muito. Desbastando o enredo, uma coisa mais me chamou os olhos: duas meninas, como se o temporal fosse nada, dançavam e brincavam na calçada. Era uma alegria boba, muito boba, mas a alegria pode parecer boba de passagem.
No terceiro dia desta nossa historinha, veio o acontecimento derradeiro. Enfrentei três horas de sol a fim de adiantar umas burocracias de inscrição para minha namorada. Foi então que eu vi uma mocinha, idade de minha irmã, quatro lugares atrás de mim na fila. As feições de um profundo tédio magoavam minha expressão – ela muito me lembrava alguém. Logo percebi que devia ser irmã de uma outra amiga minha. Sem certeza, não ofereci o lugar na fila e o remorso me roeu as unhas. Até agora guardo as marcas do sol grafadas no meu pé. Hoje meus olhos se escondem atrás das devidas cortinas.

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